Caixas acústicas: uma questão de gosto?
O texto abaixo foi editado na revista Home Theater da editora dirigida pelo amigo Orlando Barrozo. Agradeço ao Orlando que tem acompanhado o meu trabalho desde 1997. Caro Orlando: um grande abraço!
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Caixas acústicas: uma questão de gosto?
01/08/2007, por Sami Douek*
Cada povo tem sua cultura na linguagem e na forma de expressar seus sentimentos. Uns mais emotivos, outros introspectivos; uns que gesticulam e outros que se concentram na manifestação através da voz ou mesmo dos seus esforços musculares na manipulação de instrumentos musicais. Ferramenta criada há milênios e renovada constantemente na busca de uma matéria-prima sonora que é reconhecida por ouvidos e cérebros educados na memória de uma referência que atravessa o tempo, memória sempre jovem e íntegra.
Como é o som "colorido" pela tecnologia? A identidade sonora revela um gosto ou uma pré-disposição? Amigos me perguntam: por que os fabricantes de caixas acústicas ostentam um catálogo de produtos tão rico nas suas variantes? Digo que cada modelo de caixa tem o seu cliente; ou melhor, a diversidade não é uma questão de gosto; a diversidade é um fato!
A caixa acústica é uma interface analógica ao processo de transmissão das ondas sonoras geradas a partir do exercício e do esforço corporal que movimentam cordas, percussões, madeiras e o próprio corpo. Este movimento é surpreendido pela criatividade de cada artista ao controlar efeitos conseqüentes da física, do tempo, da percepção da informação no pano de fundo caracterizado pelo silêncio e outros atributos, sejam técnicos ou especificamente culturais.
Imaginemos a expressão de um sentimento através da música e do canto vinda de três ou quatro povos de diferentes regiões e etnias; não teríamos situações absolutamente distintas em pano de fundo, intensidade, altura e timbre? E na escala musical? E na imagem que o som nos reflete? Como a tecnologia se manifesta ao se adequar à tamanha riqueza nas manifestações humanas? Senão, qual o verdadeiro papel da tecnologia ao se posicionar diante das diversidades culturais?
Sejamos francos: será que na Índia de hoje não se apreciam, ao lado dos eruditos compositores ocidentais, as riquezas cromáticas, nuances e sutilezas da música regional? Vamos ao ponto: se não considerar um produto que prima por um realismo inquestionável a partir da máxima fidelidade com a física da reprodução sonora (apenas sonora e não musical, que tem atributos culturais) teremos como referência absoluta a "verdade cientificamente comprovada".
Como nosso ouvido não é um eletrodo, ponta de prova ou simplesmente um microfone, e como nosso sistema neurológico não é uma CPU ou um processador Von Newmann, portanto a nossa fonte musical é um Stradivarius, um Steinway, Harmonium, Tabla, e a nossa eletrônica é uma Bowers and Wilkins, Klipsch, Marantz ou Cabasse. Todos os grandes responsáveis por marcas na essência da palavra deixam sua assinatura expondo seu sobrenome, sua cria e suas virtudes.
Os tempos passam, a tecnologia se renova e as assinaturas ficam. Os que assinam seus produtos estão colorindo as nossas percepções e emoções oferecendo o lado humano, a meu ver o verdadeiro e mais honesto papel da tecnologia. Os técnicos que vendem seus produtos que "interfaceiam" os nossos ouvidos não devem ostentar uma convincente (?) bateria de números e gráficos que jamais podem traduzir uma identidade, uma persona!
Vamos entender que os produtos são frutos de um processo e de uma avaliação que têm lugar, berço, cultura e sobrenome. Saiba mais sobre suas necessidades, paixões e emoções. Procure conhecer ou reconhecer os seus semelhantes, falando em regiões e origem cultural de cada fabricante de caixas acústicas. Aposto que por um quinto do preço de um carro popular, e por cinco anos no mínimo, poderá comprar, manter e apreciar um sistema de áudio com nome e sobrenome assinado por quem estuda e comprova uma necessária coerência.
Entre as marcas e sobrenomes mencionados nesta coluna, saiba mais sobre o histórico e a magia que nasce junto com cada produto, cuja razão da existência é o desejo orientado pela sua percepção, cultura e vontade de se emocionar pela beleza e humanização da mais universal das artes: a linguagem musical. Amigos que defendem o famoso argumento "eu não tenho esse ouvido todo" vão se surpreender. Movimente seus sentidos e sentimentos!
* Sami Douek é consultor na área de projetos eletroacústicos. Artigo publicado originalmente na revista HOME THEATER.

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