Um assalto aos nossos ouvidos?



The loudness war!

Em 1969, a música pop ganha uma nova dimensão no seu formato praticamente a partir do álbum dos Beatles Seargent Peppers e do trabalho de Georges Martin com edições e masterização que diferencia claramente a música pop gravada da interpretação ao vivo. Entre vários discípulos do Georges Martin, destaco Alan Parsons que editou álbuns da banda Pink Floyd e criou mais tarde seus próprios álbuns utilizando seus conhecimentos técnicos na suas obras musicais e respectivas gravações estabelecendo um marco importante para a questão que poderia relacionar tecnologia com arte. A criatividade de muitos artistas novos oferece para o mercado um novo produto que é a música editada. Mesmo no campo da música erudita as edições e a capacidade de "limpar" imperfeições da tomada de som durante o preparo dos discos criou definitivamente a função copiar/colar em áudio. Isto não é o que incomoda os críticos cansados da mesmice e do enfoque vulgarmente comercial da musica enlatada em mídia física e virtual. A matéria da Rolling Stone Americana "O fim da alta fidelidade" publicada no Brasil em abril deste ano e escrita por Robert Levine sugere um contraponto entre as técnicas de gravação e edição em mídia analógica versus os truques possíveis na mídia digital que provocam fadiga auditiva. Pior é reconhecer além da fadiga auditiva é a mentira tecno-logica que é a valorização da arte a partir de truques impossíveis no mundo real. O vilão disto tudo é conhecido como compressão da informação sonora; um truque que pode ser entendido como sendo a maximização da dinâmica; até então impossível em mídias analógicas. "A música moderna deveria ser capaz de prender sua atenção." diz Rob Cavallo produtor norte americano, quando comenta sobre a compressão de áudio: "É um estilo que começou com o pós-grunge, para conseguir intensidade. A idéia era enfiar a cara do ouvinte na parede. Um CD para deixar aturdido". Uma organização sem fins lucrativos denominada Turn Me Up! providencia um selo que qualifica e prestigia as gravações que respeitam a faixa dinâmica original livre de compressões. Não é novidade que estudiosos em saúde da audição condenam os excessos da compressão, especialmente para crianças e adolescentes. Matt Mayfield, um instrutor em música e engenheiro em áudio, criou no You tube um vídeo de dois minutos que trata do assunto. Vale acessar: é ilustrativo e bem didático. Após conferir o vídeo fica claro que a compactação e seus efeitos nas modernas (de modismo) técnicas de gravação re-define para baixo a qualidade indo de melhor para aceitável ou pior. Existe uma tendência em aumentar o volume sonoro a cada remasterização em CDs desde o começo dos anos 1980; o principal motivo é a sugestão de qualidade que favorece sempre a sensação de maior qualidade relacionada a maior intensidade sonora; isto faz sentido especialmente ao considerar que a inteligibilidade da informação sonora é melhor percebida se bem destacada em relação aos ruídos nas circunstancias de audição especialmente quando se ouve música no carro, na rua ou no metrô. Muitos falam em "guerra de volume" como elemento de competição entre artistas e selos de gravadoras. Sabendo que o volume máximo sonoro que pode ser atingido por um CD está estabelecido como limite pré-fixado, a intensidade sonora percebida segue apenas dois critérios: o volume máximo atingido por um pico na informação musical e o volume médio registrado após a edição ou masterizção. O respeito pela manutenção da intensidade sonora como acontece no mundo real é a qualidade defendida pelos oponentes da técnica de compressão dinâmica. Entre eles, está Bob Dylan que revê a qualidade de áudio no seu (recente) álbum Modern Times. Som está em todo lugar; a música atualmente em muitos casos re-modelada e re-desenhada, cria uma outra forma de invadir e agredir a nossa percepção auditiva. Do novo (de fato, nada tão novo) a quantidade subverte a qualidade, o que não deveria ser jamais o papel da tecnologia, mas que acaba sendo quando muitas vezes ela utilizada para supostamente atender necessidades ditas mercadológicas. Parece estranho ou exagerado; mas a omnipresença da música no nosso ambiente de convivência parte de pequenos objetos sonoros que acabam funcionando como simples pano de fundo, este fundo sonoro mas não musical, está nos restaurantes, cafés, carros, barcos e aviões quando não já não estão portados em nossos ouvidos via fones auriculares plugados em caixas pretas reluzentes que armazenam e tocam centenas ou milhares de minutos/kilobytes sonoros. Nada contra os gadgets de áudio portáveis; sou fã destes brinquedos. O que então acontece como o modo de ouvir dos que não viveram outras experiências fora da realidade dita economicamente viável? para ser justo, de fato, a mudança vem de longe e gravações do som transformam radicalmente a criação, registro e reprodução e difusão da música erudita e popular desde o começo do século passado para sempre, realidade que devemos aceitar. O que incomoda alguns especialistas em áudio, é que com o avanço técnico, somos mais persuadidos a consumir do que escolher o que mais nos interessa e seduz, e com isso, todas as pessoas tendem a esquecer como se deve como ouvir musica em contraponto com o silêncio, ouvir a música e todas as suas nuances e riquezas com naturalidade e emoção atribuída aos melhores compositores, obras e intérpretes do erudito ao pop sem o exagero da maximização agressiva das técnicas de gravação e edição que destroem a arte e o refinamento da dinâmica dos sons. A compressão busca uma constante na intensidade sonora para tornar a musica mais agitada e dançante por decreto comercial e não pela beleza e estética. Ouvir alto não é sinônimo de qualidade, nunca foi. Fica evidente que a dinâmica da obra escrita pelo compositor pode ser preservada e o direito ou vontade de se ouvir alto é perfeitamente factível para qualquer um ao usar um simples botão chamado volume. Compartilhe suas apreciações.

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