Lehaim!
Presente aos quarenta?
Gonzaga, quinta feira 5 de agosto de 2004, 7hs da manhã na orla, enquanto caminhava antes da minha pequena reza matinal e início de expediente no meu escritório em Santos. Neste mesmo dia, pensei em escrever o que poderia ter sido o início de um novo formato para me comunicar de forma mais precisa e coerente. Pensei então que iria escrever na web e falar sobre high tech e future business em áudio e vídeo; mas não aconteceu; tive que me entregar as minhas mais primitivas emoções e contar, tornando público, o que eu sempre esperei por essa magia que é a musica como resultado de um design, um simples objeto. Desgin não é arte mas é uma mediação para expressões como a fala e a música. O meu objetivo agora é tirar da gaveta o velho e atual texto que deu início às minhas também não menos primitivas habilidades em escrever. Porque reciclar hoje este texto de 2004? Sempre penso em momentos que marcam; os quarenta, cinquenta, sessenta...de dez em dez, fica de certa forma natural e interessante; afinal dez (quase sempre) são os dedos das mãos. Nesta semana estou virando o contador; mais um dígito, de 59 para 60. Se fosse economista eu diria que tempo é dinheiro; mas como não acredito nisso (nesta relação) entendo que tempo é vida. Vida para marcar as nossa experiências e o andamento da nossa existência. A cada década podemos marcar um ponto na jornada da vida. A day in life, a life in a day. Hoje 28 de novembro de 2008 remonta à 1948. Um ano difícil para quem sabe do que estou falando. Ano do meu nascimento e de muitas transições na luta dos nossos pais, no pós-guerra (infelizmente pós e pré guerra, 48 e 56) e na fé por um futuro melhor e pela vida. Com alegria compartilho com vocês o meu afeto e apreço pela ternura e amizade que tenho pela minha familia, pelos meus amigos e alguns muito mais que especias por marcar imprimindo para sempre a minha personalidade.
Lehaim!
Sami Douek
Santos, 28 de novembro de 2008.
Eis o texto:
Eu valorizo tanto uma parker 61 que ganhei no meu Bar-Mitsva (o que equivale à primeira comunhão para a comunidade judaica), quanto um sistema de áudio (minha paixão pela música) que me custou alguma grana e que me serve hoje para rever e reviver a música. E porque não? Assim aos quinze anos, fascinado por discos e toca discos, tive então como objeto do desejo uma vitrolinha Philips...
Passado!
O meu objeto do desejo, na época, fabricado no começo dos anos 60, estava nas vitrines de algumas lojas especializadas em som e fotografia, lembro, na rua Itapetininga no centro de São Paulo, quando eu, filho de imigrantes e de mãe judia não tinha a menor possibilidade em convencer qualquer pessoa em relação a este desejo tão fútil! O tempo passou. Cada vez que me lembrava do pequeno e belo (sexy?) objeto. Imaginava em reviver o passado. Um dia, passando perto de uma instituição de caridade que mantinha um sebo (na Rua França Pinto em São Paulo) vou à procura de livros e discos, o que é, e sempre será um dos meus prazeres prediletos. No meio de bugigangas de todo tipo, me aparece o meu antigo objeto do desejo: Eu o abracei!Fui até o caixa, eufórico perguntando o preço, como se isso fosse fazer alguma diferença para mim. Encontrei o meu objeto do desejo aos quarenta anos em razoável estado de conservação e que foi recuperado, como novo, em seis semanas de trabalho minucioso. E por que a obstinação por algo tão simples? Eu sei. E muitos sabem: resgatar valores emocionais da nossa história, do nosso passado, da nossa identidade enfim, vale tanto quanto um divã de 45 minutos em longos intervalos constantes; ou até mais! vale tanto quanto uma "praia" predileta; mesmo que seja Nova Iorque. Estes valores emocionais são primitivos e grandes. São momentos de felicidade onde nada se questiona. Felicidade é isso; onde nada se questiona. E a música? como fica? A qualidade estaria no chiado do velho vinil? Estaria no som "preso e chapado" da vitrolinha ? Neste caso a musica agrega uma qualidade reconhecida pelo coração. Este coração que não calcula, não racionaliza, que não vê mas sente...
(...)
Isto não é uma newsletter é uma simples vontade de escrever para os meus amigos. Na verdade mesmo, eu gostaria de comunicar que estou revendo a forma de administrar e apreciar o meu trabalho.
(...)
Sami Douek
5 de agosto de 2004.





Comentários
O seu encontro com a vitrola me lembrou Cidadão Kane e seu trenó.
Também ganhei uma dessas (usada) e ao ler seu texto tive uma descarga de adrenalina que me trouxe à tona da memória - pasme - meu primeiro e por muito tempo único disco: Mário Lanza.
E rodou milhares de voltas, meses a fio, cada vez com mais chiado, mas melhor e melhor, pois aprendi a gostar e entender um pouco de música com essa experiência.
Grande abraço e feliz sessentão. É um privilégio chegar-se a esta idade com tanta jovialidade nas idéias e atos.