O Engenheiro que virou Música

Sexta-feira e fim de semana, 25,26 e 27 de Janeiro de 2008
O empresário Heraldo Marin, sócio da Techné Engenharia, investe R$ l milhão em editora e gravadora dirigida à produção erudita. Lucro deve vir em cinco anos.
Por João Marcos Coelho, para o Valor, de São Paulo
Paixão e negócios costumam ser departamentos estanques. Mesmo na vida dos empresários bem-sucedidos. O exemplo mais conhecido é o do nova-iorquino Gilbert Kaplan, de 66 anos. Ele amealhou uma fortuna com a revista "Institucional Investor", que fundou em 1965. Em 1982, aos 41 anos, vendeu-a por US$ 72 milhões. Continuou como seu editor-chefe até 1993. Daí para a frente, apagou o passado e dedicou-se à paixão de sua vida: reger a "Segunda Sinfonia", apelidada "Ressurreição", do austríaco Gustav Mahler (1860-1911). Criou a Fundação Kaplan dedicada só a Mahler e comprou os manuscritos da sinfonia, regeu-a com mais de 50 orquestras e gravou-a duas vezes: em 1998, com a Sinfónica de Londres, e em 2003, com a Filarmónica de Viena. Kaplan só rege essa obra e abre honrosa exceção apenas para o famoso "Adagietto" da "Quinta Sinfonia" de Mahler, conhecido do público porque foi usado como trilha no filme 'Morte em Veneza", de Lucchino Visconti.
Regras, no entanto, sabe-se, estão aí para ser quebradas. O engenheiro Heraldo Luiz Marin, nascido em Piraju, no interior do Estado de São Paulo, personifica a exceção a essa regra. Em sua vida sempre se combinaram paixão e negócios. Em 1990, obteve doutorado em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) com uma tese sobre software para recursos humanos governamentais. Com dois outros colegas, fundou a Techné Engenharia. Hoje, a companhia é sinónimo de sucesso. Faturou R$ 20 milhões no ano passado. Entre seus clientes estão as prefeituras de São Paulo e Porto Alegre e os governos de Mato Grosso, Espírito Santo, Ceará e Maranhão. Entre as universidades, duas das
maiores do país: Unip (São Paulo) e Estácio de Sá (Rio). Um time de 80 engenheiros toca o negócio. Tudo estaria no melhor dos mundos. Até porque coloca a criação de software em patamar tão prazeroso quanto a de um romance. Só que, dois anos atrás, outra paixão curtida desde a adolescência ganhou todos os espaços de sua vida. O fato se deu num jantar na casa da soprano Niza de Castro Tank, em janeiro de 2006. Niza sempre foi sua diva lírica preferida desde que a viu no palco. "A primeira ópera a que assisti em minha vida foi 'O Guarani', de Carlos Gomes [1836-1896], com Niza, no fim dos anos 1960. Aquilo me marcou muito. Depois, só a reencontrei em 2005 no Teatro São Pedro, em São Paulo. Em um jantar posterior, ela comentou a ideia de editar um livro-CD com as canções de Carlos Gomes. Topei na hora. Naquele momento nascia a Editora Algol."
A filosofia básica é lançar projetos de qualidade na área musical, via CDs, DVDs e livros. Em suma, "conjugar alta qualidade com preço acessível, usando talento brasileiro". "A ideia é unir as artes, especialmente literatura e música. Existe uma nova geração com grande potencial. E esse é um nicho ainda mal explorado no mercado editorial e fonográfico brasileiro", avalia.
Marin investiu até agora cerca de R$ l milhão, 25% desse total foram gastos na montagem de um estúdio profissional de gravação, o Avellaria — condição indispensável para se pensar em gravações decentes do ponto de vista técnico. "Em cinco anos a editora e o estúdio devem se pagar. Esse é o prazo normal", diz Marin. "O lucro não é o que mais importa. O património que se acumula é que é de fato importante."
O empresário já identificou acertada-mente a distribuição como "maior nó deste tipo de negócio". Os produtos da Algol já estão disponíveis nas redes Cultura e Saraiva, além da Livraria da Travessa e Leonardo da Vinci, no Rio, e Van Dame, em Belo Horizonte. Muito pouco para um país continental. Por isso, não descarta outro investimento paralelo: a distribuidora própria.
Ou seja, se de um lado ele sabe que não se deve lidar com arte da mesma maneira como se se tratasse de hortifrutigranjeiros, por outro, Marin tem o tirocínio empresarial necessário para aguardar um prazo razoável para se ressarcir do investimento. E o melhor: tem consciência de que contribui para a elevação do nível de publicações e gravações musicais no Brasil.
"Minhas Pobres Canções" foi o primeiro e mais luxuoso lançamento da editora: traz um estudo de cada uma das 41 canções de Carlos Gomes, partitura canto e piano e a gravação de todas elas por Niza, acompanhada por Acchile Picchi ao piano. Ê uma revelação — sobretudo para públicos mais amplos, que só conhecem "Quem Sabe?" — aquela dos versos "Tão longe, de mim distante/ onde irá, onde irá teu pensamento?"
Em dois anos, a Algol sacudiu o adormecido mercado de gravações e publicações de música clássica e ópera no Brasil com um precioso punhado de lançamentos. Um destaque é "A Arte do Piano", um catatau do pesquisador musical Sylvio Lago com quase 800 páginas, que funciona como bíblia para quem quer saber tudo sobre piano e pianistas, do clássico ao jazz e à música popular. Outro ponto alto é um CD com o barítono Rodrigo Esteves interpretando canções de Manuel de Falia, Ravel, Villa-Lobos, Walde-mar Henrique, Lorenzo Fernández, Jayme Ovalle e Babi de Oliveira. "A Invenção da Ópera", de Sérgio Casoy, é outra boa produção da editora. O material explica cada elemento envolvido no espetáculo, como orquestra, coro, regência, bale, direção de cena, e invade o imaginário das grandes divas líricas, de Maria Callas a Pavarotti, de Titta Ruffo a Arma Netrebko.
Dois formidáveis lançamentos, que enfocam a cultura russa no período soviético, dão bem a medida de sua seriedade de propósitos: "Poesia Soviética" — com seleção. tradução e notas do crítico Lauro Machado Coelho — e "Schnittke, Música para Todos os Tempos", de Marco Aurélio Scarpinella Bue-no. O primeiro é uma rara e importante cole-tânea dos principais poetas russos que se contrapuseram ao realismo socialista do regime, em primorosas traduções de Coelho. São nomes praticamente desconhecidos por aqui, com exceção de Yevgeny Yevtushenko, de 75 anos, e Joseph Brodsky, de 68, mas de genial fatura poética. Nomes como Nikolay Zabolotsky (1903-1958), autor de um comovente poema intitulado "Beethoven", no qual se lê: "O mundo não é feito de sonho e desrazão O coração não ouve música concordante no canto obstinado da ventania, e a alma não sente voz nem harmonia."
Já a biografia pioneira de Alfred Schnittke (1934-1998) é feito memorável. É incrível, mas um médico brasileiro, apaixonado pela música russa, sobretudo de Dmitri Shostakovich (1906-1976) e Schnittke, conseguiu pesquisar e escrever a segunda — e ótima, diga-se — biografia no mundo do compositor russo (atrás apenas da de Alexander Ivashkin, que privou da amizade do próprio Schnittke).

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Dr. Reynaldo Gomes, Bauru-SP.