Para os fãs do piano: Valor econômico, fim de semana, 15,16 e 17 de junho de 2007


Uma bíblia para os fãs do piano
Por João Marcos coelho, para o valor, de São Paulo

Livro de Sylvio Lago traz tudo o que um apaixonado pelo instrumento quer saber, seus compositores e intérpretes, de obras eruditas ou populares, numa história abrangente.


Glenn Gould interpreta Mozart

A escuta atenta de um Keith Jarrett ou Brad Mehldau em ação emo­ciona porquese sente a força de dois níveis de criação musical si­multâneos: pianista e compositor impõem­se no chamado calor da hora. A mesma es­cuta atenta também se enche de emoção ao deixar-se invadir por uma interpretação sanguínea e rigorosa de obras-primas de Bach, Beethoven ou Chopin. Mas, nesse ca­so, pianista e compositor separam-se: ah, suspiramos, como é maravilhoso o Bach de Glenn Gould, o Beethoven de Wilhelm Kempff ou o Chopin de Nelson Freire.

Algum desavisado pode dizer que aí está a diferença entre a dita grande música e as outras, improvisadas. Ledo e Ivo engano. Bach, Beethoven e Chopin eram excepcio­nais improvisadores e escreveram em pri­meiro lugar pensando neles mesmos como intérpretes. Apenas na década de 30 do sé­culo XIX um pianista-compositor húngaro chamado Franz Liszt começou a tocar tanto suas obras como músicas dos outros, dando o pontapé inicial no gênero do recital de piano, um dos formatos mais populares da música nos últimos dois séculos.

Esse palavrório todo serve para provar ao menos que importa pouco se o pianista toca músicas suas ou de terceiros; o critério que os joga na lata de lixo ou no pódio da histó­ria é a qualidade de invenção e de interpreta­ção. Acrescente-se a isso o fato de que desde o primeiro, construído 300 anos atrás por um italiano chamado Bartolomeo Cristofori em Florença, o piano é o único instrumento que substitui a orquestra inteira e foi coroa­do no século XIX o rei dos instrumentos.

Essa visão sem preconceito, aberta a todas as músicas desde que observem padrões ri­gorosos de qualidade de invenção, faz de "Arte do Piano - Compositores & Intérpre­tes", de Sylvio Lago, um livro obrigatório na estante de todo aquele que curte um piano, digamos assim. De Backhaus a Pollini, de Na­zareth a Sinhô, de Brad Mehldau a Gilson Pe­ranzetta, de Jelly Roll Morton e Duke Ellling­ton a Alfred Brendel e Glenn Gould estão todos lá, numa história abrangente e diver­sificada contada em suculentas 750 páginas (para não dizer que estão todos, falta André Mehmari). O livro, que está sendo lançado pela Editora Algol, de São Paulo, observa al­guns cuidados básicos, como índice ono­mástico, ferramenta quase sempre ignorada na indústria livreira brasileira.

"Não gosto de separar, por categorias qua­litativas ou critérios de valor, a criação da música dita clássica e do que se produziu de melhor na arte popular brasileira e no jazz", afirma Lago. "Acho que tanto o jazz quanto 0 popular e nacional são artes superiores que possuem uma ou várias origens, tiveram e têm uma história, vários estilos, grandes cria­dores e individualidades, alguns espíritos inovadores, muitos virtuoses, diversas for­mas e gêneros de expressão morfológica."

Em síntese, Lago diz que tudo que é música não lhe é indiferente do canto ambrosiano aos madrigais de Gesualdo, do primeiro ao úl­timo barroco e destes aos classicismos, ro­mantismos e criações do século XX. Desde criança ele aprendeu a amar Nazareth, Eduar­do Souto e Dick Farney e, com relação ao jazz, pesquisou a sua história, de Jelly Roll Morton a Thelonious Monk, até chegar aos pianos refi­nados de Bill Evans e Brad Mehldau.

Apesar do tamanho, é livro feito para to­dos os públicos, desde que cumpram um requisito prévio fácil: gostar de piano. Foi escrito, diz Sylvio, "pensando nos que se re­lacionam com a música pelo prazer da contemplação sonora e nos que estão em estágios mais aprofundados da apreciação musical". De fato, ele não se perde em deta­lhes biográficos, listagem de prêmios e gravações. Vai direto ao ponto. Diz em quais compositores elou obras específicas o pianista se destaca, descreve suas quali­dades interpretativas. Enfim, como ele mesmo gosta de dizer, fez "pequenos ensaios sobre cada um deles".

O "pequeno" é modéstia dele. Cobrindo praticamente tudo que você sempre quis saber sobre o piano como instrumento, seus compositores e maiores intérpretes ao longo da história, e ainda por cima com um panorama atualíssimo do jazz e música instrumental brasileira, um livro desses leva muito tempo para ser pesquisado e escrito. “O livro foi germinado há algumas décadas como um projeto com intenção tríplice: "A Arte da Regência", Arte do Piano e Tratado dos Gêneros e For,­mas Musicais: O primeiro foi editado há cin­co anos e o terceiro está em gestação.

Os grandes pianistas são um "patrimônio emocional dos ouvintes", escreve Sylvio a certa altura. E na entrevista ele confessa que este "é um trabalho sobretudo de um anota­dor inveterado, de um espectador entusias­mado que vive pesquisando (e ouvindo) no­vos e antigos artistas do teclado e que prati­camente fez todas as suas análises interpre­tativas a partir da audição discográfica".

E querem saber qual foi a maior dificul­dade para levar a porto seguro seu projeto? A parte brasileira. "É clamorosa a ausência de fontes documentais e a literatura ainda incipiente em todos os campos temáticos. Outro obstáculo é a dispersão e difícil localização de arquivos sonoros e documen­tais. Cauteloso, Sylvio passa longe das wiki­pedias cheias de cascas de banana. "Devo di­zer que só uso a internet para checar data de nascimento e morte de artistas e composi­tores, já que prefiro consultar livros e perió­dicos, além da coleção de discos"

Entre os achados mais interessantes e sur­preendentes do livro estão, por exemplo, as nove páginas dedicadas ao pianista canaden­se Glenn Gould, recorde absoluto do livro e xodó do autor (ninguém perguntou, mas meu também). E faz questão de preenchê-las com informações utilíssimas e interessantes. Por exemplo: sabe-se da célebre gravação ao vivo do concerto n-° 1 de Brahms em que o maestro Leonard Bernstein, já com Gould sen­tadinho na sua velha cadeira em frente do Steinway, diz ao distinto público que não con­corda com a concepção que o solista tem da­quele concerto - mas está ali num sinal de respeito às posições de quem considera um dos maiores pianistas do século. Gould altera radicalmente os tempos dos movimentos.

Pois Sylvio reproduz a fala de Bernstein e elabora um quadro comparativo de minuta­gens das gravações das duplas Gould/Berns­tein, Nelson Freire/Riccardo Chailly, Rudolf Serkin JGeorge Szell, Arthur Rubinstein/Fritz Reiner e Arthur Schnabel/George Szell. Conclusão: Gould leva cinco minutos a mais no maestoso inicial, acelera no adágio interme­diário e ralenta dois minutos, em média, no allegro ma non troppo final. Não há quem, após ler isso, não queira ouvir ao menos as versões de Gould e de Freire. E um livro como este cumpre sua função fundamental quando incita o leitor a correr para ouvir a obra.

A preferência de Sylvio por Gould é óbvia. Para vocês terem uma idéia, Maurizio Polli­ni ganha uma página e Daniel Barenboim, só meia. Entre os brasileiros, Nelson Freire é o recordista, com 3,5 páginas. No jazz, con­cordamos em quase tudo: Duke Ellington fica com 5 páginas, Art Tatum 3, Monk 4. E o "hors-concours" é o vienense Friedrich Gul­da, que freqüenta com destaque e direito a verbetes, os capítulos dos grandes pianistas e do jazz (merecidamente, aliás). E, compa­rando o jazz de Gulda ao de outro dublê, André Previn, Sylvio acerta de novo ao valo­rizar mais o ex-marido de Mia Farrow.

Por tudo isso, se você ainda não conhece os livros de Syvio Lago, compre, além deste magnífico "Arte do Piano", também a "Arte da Regência". E aguarde com sofreguidão 0 próximo, que, ele promete, "será um tratado ou dicionário de gêneros e formas musicais não só da música da tradição européia, mas também da música brasileira e do jazz".


Glenn Gould, le dernier puritain Kevin Bazzana

La légende veut que Gould ait été un reclus souffrant d’instabilité émotive, surgi de nulle part, dont l’apparition sur la scène musicale aurait fait l’effet d’un coup de tonnerre. Le portrait nuancé qu’en trace Bazzana est tout autre, celui d’un être complexe qui, tout en étant un véritable excentrique et en faisant preuve de dons exceptionnels, était beaucoup plus qu’on ne l’a dit le produit de l’époque et du milieu qui l’avaient vu naître.
Bazzana fait le bilan des diverses influences qui se sont exercées sur Gould : celle – religieuse, sociale, culturelle – du Toronto de l’immédiat avant-guerre, celle de son enfance protégée, celle de son seul professeur officiel de piano, et celle des nouvelles institutions culturelles qui ont vu le jour au Canada au cours des années 50 et 60. L’auteur propose également de nouvelles perspectives sur la vie professionnelle de Gould : sa brève mais marquante carrière de concertiste, sa passion pour l’enregistrement et les médias électroniques, ses relations avec la CBC, la compagnie de disques Columbia et les facteurs de pianos Steinway & Sons.
L’auteur a puisé dans les souvenirs de nombreux proches de Gould, souvent interviewés ici pour la première fois, ainsi que dans les archives du musicien pour faire ressortir des aspects originaux du développement musical et intellectuel de Gould, de ses excentricités légendaires, de ses convictions et de ses valeurs, de sa vie sentimentale entourée de secret, de son hypocondrie et de son équilibre mental, de son sens de l’humour typiquement Canadian. Enfin, il analyse les défis qui se sont posés à Gould au cours de ses dernières années : problèmes de santé menaçant la motricité de ses mains, tensions familiales, nouvelles voies créatrices musique de film et direction d’orchestre –, et il fait enfin état du véritable culte posthume dont le pianiste est l’objet. (Présentation de L'éditeur)


Comentários

Anônimo disse…
eu gostei muito dessa matéria quando li no valor econômico. beijos, pedrita

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